Barraqueiros contestam versão de agressão a casal em Porto de Galinhas e negam homofobia

Comerciantes que atuam na praia de Porto de Galinhas, em Ipojuca, no Litoral Sul de Pernambuco, vieram a público para negar que tenham iniciado as agressões contra um casal de turistas de Mato Grosso no último sábado (27). Em vídeo divulgado nas redes sociais nesta segunda-feira (29), os barraqueiros apresentaram sua versão dos fatos, afirmaram que não houve motivação homofóbica e alegaram que o conflito começou após uma discussão sobre o pagamento pelo uso da estrutura da barraca.

O episódio ganhou repercussão nacional após imagens mostrarem um dos turistas com ferimentos no rosto e relatos de violência generalizada. De acordo com os comerciantes, a confusão teve origem em um desentendimento comercial e não em preconceito ou tentativa de exploração indevida dos visitantes.

Cobrança por estrutura teria sido informada previamente

Segundo um dos barraqueiros, desde o primeiro contato com o casal foi explicado que o valor cobrado pelo uso de duas cadeiras e um guarda-sol era de R$ 80, além do consumo na barraca. A versão apresentada pelos turistas, de que o preço combinado inicialmente teria sido R$ 50, é rebatida pelos comerciantes.

“O companheiro Eduardo abordou o pessoal lá em cima, explicou que o aluguel da estrutura custava R$ 80 e que era necessário consumir. Aparentemente, eles estavam embriagados”, afirmou um dos trabalhadores no vídeo.

Ainda conforme os barraqueiros, em meio à situação, outra comerciante, identificada como Vera, tentou atender uma família que se acomodaria em frente ao casal. Ela relata que, ao posicionar as cadeiras e o guarda-sol para os novos clientes, um dos turistas teria reagido de forma agressiva.

“Quando a gente colocou as cadeiras para o cliente sentar, ele simplesmente pulou da cadeira dele para a da frente e disse que ninguém ficaria na frente deles”, contou Vera.

Barraqueiros dizem que estavam apenas trabalhando

Os comerciantes ressaltaram que a intenção era apenas exercer a atividade profissional de forma regular, dentro da concessão existente para exploração dos serviços na praia. Um dos trabalhadores destacou que, embora a praia seja um espaço público, o uso de cadeiras e guarda-sóis faz parte de um serviço pago.

“Tem gente que chega com a ideia de que não vai pagar, dizendo que é espaço público. A praia é pública, sim, mas existe uma concessão para a gente trabalhar. Ninguém proíbe ninguém de sentar na areia. Agora, usar cadeira e guarda-sol é um serviço. Ninguém aqui está trabalhando de graça, todo mundo é trabalhador”, declarou.

Comerciante afirma ter sido agredido primeiro

Os barraqueiros também alegam que as agressões físicas começaram após um deles, identificado como Dinho, se aproximar do casal com o cardápio para informar os valores praticados pela barraca. Segundo ele, a reação teria sido violenta.

“Ele me agrediu. Primeiro deu um tapa no meu rosto e no cardápio, depois me deu um mata-leão. Quando eu estava apagado no chão, os meninos me socorreram”, relatou Dinho.

Outro comerciante afirmou que a narrativa de que cerca de 30 pessoas teriam atacado o casal não corresponde à realidade. Segundo ele, houve confusão generalizada, mas o número de envolvidos teria sido bem menor.

“Não vou ser hipócrita e dizer que não houve briga. Houve, sim. Mas dizer que 30 pessoas agrediram eles não é verdade. Foram, sei lá, quatro ou cinco pessoas”, afirmou.

Negativa de homofobia

De forma enfática, os barraqueiros negaram que o episódio tenha sido motivado por preconceito contra a orientação sexual do casal. Segundo eles, o público LGBTQIA+ é bem-vindo e frequente na praia.

“Não houve homofobia. A gente adora o público homossexual. É um público que consome, que é gente boa. Não teve nenhum lance disso, não”, finalizou um dos comerciantes.

Versão do casal de turistas

Já os turistas Johnny Andrade Barbosa e Cleiton Zanatta sustentam que foram vítimas de agressões desproporcionais. Eles foram retirados do local por uma equipe de salva-vidas do município, que interveio no conflito.

De acordo com o casal, a confusão começou quando os comerciantes teriam tentado cobrar um valor maior do que o combinado inicialmente pelo uso das cadeiras e do guarda-sol. Em vídeos publicados nas redes sociais, um deles aparece com ferimentos no rosto, e ambos classificam o ocorrido como um “massacre”.

“Chegamos à praia, um rapaz nos atendeu e ofereceu duas cadeiras e um guarda-sol por R$ 50. Na hora de pagar, ele cobrou R$ 80. Eu disse que não era justo e que pagaria os R$ 50”, relatou uma das vítimas.

Segundo o casal, a situação se agravou rapidamente. “Ele juntou a cadeira e jogou em mim. Depois vieram 10, 15 pessoas, me chutando. Não tive reação. Meu companheiro saiu correndo para pedir ajuda porque não havia policiamento. Só reagiram quando viram que a gente ia ser linchado”, disse um dos turistas.

Cleiton Zanatta afirmou ainda que pretende acionar judicialmente a Prefeitura de Ipojuca e o Governo de Pernambuco. “Espero nunca mais pisar nesse lugar. A praia é linda, mas, se continuar assim, não vai ter mais turismo em Porto de Galinhas”, declarou.

Medidas adotadas pela prefeitura e investigação

Diante da repercussão do caso, a Prefeitura de Ipojuca anunciou, na segunda-feira (29), uma série de providências. A barraca envolvida teve as atividades suspensas temporariamente por uma semana. Além disso, garçons e atendentes citados no episódio foram afastados de forma preventiva até a conclusão das investigações.

Em nota, a gestão municipal afirmou que repudia qualquer forma de violência e reforçou o compromisso com a segurança e o respeito aos visitantes. O município destacou que episódios como esse não refletem a vocação turística de Porto de Galinhas, destino reconhecido nacional e internacionalmente.

As investigações identificaram 14 pessoas envolvidas nas agressões, sendo que uma delas já foi indiciada. A informação foi confirmada pela governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, em entrevista concedida na segunda-feira.

“Estamos trabalhando para identificar a conduta de cada pessoa envolvida, avançar no inquérito policial e encaminhar os responsáveis à Justiça para que sejam punidos, inclusive criminalmente”, afirmou a governadora.

Raquel Lyra classificou o episódio como inadmissível e ressaltou a importância de garantir segurança e tranquilidade para moradores e turistas. “Um lugar é bom para visitar quando é bom para viver”, concluiu.

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