Estado marca presença em festival que celebra 20 anos valorizando o audiovisual independente e periférico brasileiro
O cinema produzido em Pernambuco será um dos grandes destaques da edição 2026 do Festival Visões Periféricas, um dos mais importantes eventos dedicados ao audiovisual independente e periférico do país. Ao todo, quatro produções pernambucanas integram a programação oficial do festival, que acontece entre os dias 23 e 26 de julho, no Rio de Janeiro, com parte das exibições também disponível online para espectadores de todo o Brasil. Além de abrir oficialmente o evento com a estreia carioca do longa-metragem Arquivo Vivo, dirigido por Vincent Carelli e Ana Carvalho, o estado também será representado pelos curtas Os Arcos Dourados de Olinda, Trincheiras e Dynamite Som, o Futuro é Lamento Negro.
Celebrando duas décadas de história, o Festival Visões Periféricas chega à sua 20ª edição consolidado como uma das principais vitrines para produções realizadas fora dos grandes centros da indústria audiovisual brasileira. Neste ano, foram selecionados 69 filmes entre 856 inscritos, um crescimento de aproximadamente 70% em relação à edição anterior, demonstrando o fortalecimento da produção independente em todo o país.
A programação reúne obras de 18 estados brasileiros e evidencia a diversidade cultural, estética e narrativa do cinema nacional, dando espaço para histórias produzidas por realizadores independentes, coletivos audiovisuais, povos originários, comunidades periféricas e iniciativas de formação.
Pernambuco abre o festival com longa homenageado
A abertura do Festival Visões Periféricas acontece no dia 23 de julho, na Estação Claro Rio, em Botafogo, com a estreia carioca de Arquivo Vivo, longa-metragem produzido em Pernambuco e dirigido por Vincent Carelli e Ana Carvalho.
O filme integra o projeto Vídeo nas Aldeias, homenageado desta edição do festival. Reconhecido nacional e internacionalmente, o projeto é referência na valorização da produção audiovisual indígena e completa uma trajetória marcada pelo fortalecimento da comunicação feita pelos próprios povos originários.
Com classificação livre e duração de 137 minutos, Arquivo Vivo simboliza a importância histórica do cinema documental brasileiro e reforça o protagonismo pernambucano na programação do evento.
Produções pernambucanas abordam memória, crítica social e resistência
Além do longa de abertura, Pernambuco estará representado por outras três produções que evidenciam diferentes linguagens cinematográficas e temáticas contemporâneas.
O documentário Os Arcos Dourados de Olinda, dirigido por Douglas Henrique, apresenta uma abordagem bem-humorada e crítica ao revisitar um episódio curioso da história da cidade. O filme investiga a disputa simbólica entre a primeira prefeita comunista do Brasil e a instalação da primeira unidade do McDonald’s em Olinda, questionando como o município se tornou conhecido por ser “a primeira cidade do mundo a falir um McDonald’s”.
Já a ficção Trincheiras, dirigida por Lilih Curi, acompanha a trajetória de Anastácia, uma mulher que perde a voz e, impedida de trabalhar, passa a enfrentar um relacionamento abusivo que limita sua liberdade. A obra trata de temas como violência de gênero, autonomia feminina e superação.
Fechando a participação pernambucana, o documentário Dynamite Som, o Futuro é Lamento Negro, dirigido por Lia Letícia e Pedro Severien, mistura ficção científica, memória e cultura popular. A narrativa acompanha duas jovens que vivem em um futuro onde música e dança foram proibidas. Na tentativa de recuperar essas manifestações culturais, elas encontram o grupo afro-cultural Lamento Negro, de Peixinhos, em Olinda, e elaboram um plano para enviar essas memórias ao futuro.
As quatro produções demonstram a pluralidade criativa do audiovisual pernambucano, reconhecido nacionalmente por sua capacidade de unir inovação estética, crítica social e valorização das identidades locais.
Diversidade é marca da edição de 2026
Segundo os curadores Lukas Nascimento, Quézia Lopes, Olinda Tupinambá e Wilq Vicente, os filmes selecionados refletem uma ampla variedade de temas presentes na sociedade brasileira contemporânea.
Entre os principais assuntos abordados estão memória, identidades de gênero, culturas de terreiro, questões ambientais, apagamentos históricos, cotidiano urbano, precarização do trabalho e protagonismo feminino.
As produções foram organizadas em sete mostras, sendo quatro competitivas e três não competitivas. As categorias competitivas são Fronteiras Imaginárias, Cinema da Gema, Panorâmica e Visorama. Um júri especializado escolherá o melhor filme de cada categoria, além da premiação concedida pelo júri popular.
Também integram a programação as mostras Informativa, ICPLAY e Visões do Amanhã, voltada ao público infantojuvenil.
Festival acompanha transformação do cinema periférico
Para o idealizador e coordenador-geral do Festival Visões Periféricas, Márcio Blanco, a trajetória do evento acompanha a consolidação de um novo momento do audiovisual brasileiro.
“Quando o festival surgiu, poucas pessoas olhavam para essa produção da periferia. Duas décadas depois, ela ocupa um espaço cada vez mais relevante, ajudando a romper estigmas, revelando a diversidade de olhares sobre questões nacionais e regionais e apresentando novos arranjos estéticos e criativos no audiovisual brasileiro”, afirma.
Segundo ele, também é possível perceber uma mudança no comportamento do público.
“Vejo também o interesse pela retomada da narrativa. Depois do consumo fragmentado de conteúdo nas redes sociais, o público jovem volta a valorizar o cinema como espaço de encontro e construção de experiências compartilhadas. O cinema é uma experiencia coletiva de socialização, de encontro e a narrativa é essa ferramenta de conexão entre as pessoas”, destaca.
Cinema periférico amplia repertórios e linguagens
O curador Wilq Vicente observa que o cinema periférico passou por profundas transformações ao longo das últimas duas décadas.
“Se antes predominavam filmes de denúncia sobre temas urgentes, como violência, racismo, representatividade e território, hoje vemos obras mais elaboradas do ponto de vista narrativo e estético, com crescimento da ficção e mais subjetividade”, afirma.
Para ele, os temas sociais permanecem presentes, mas aparecem inseridos em narrativas mais complexas.
“As questões raciais e sociais continuam presentes, mas são apresentadas de forma mais elaborada, atravessando histórias sobre trabalho, afetos, relações familiares e amor”, explica.
Wilq também destaca a importância das políticas públicas de incentivo ao setor audiovisual.
“Pela primeira vez chegaram ao festival filmes de cidades e estados que nunca haviam participado e muitos com apoio dessas duas leis”, diz, referindo-se à Lei Paulo Gustavo e à Lei Aldir Blanc.
Formação profissional também integra programação
Além das sessões de cinema, o Festival Visões Periféricas promove o Visões Lab, laboratório gratuito voltado ao desenvolvimento de projetos audiovisuais.
A iniciativa acontece paralelamente ao festival, entre os dias 21 e 26 de julho, oferecendo atividades de formação, consultorias, articulação de mercado e aperfeiçoamento de projetos cinematográficos.
A proposta reforça o compromisso do evento com a formação de novos realizadores e com o fortalecimento da cadeia produtiva do audiovisual brasileiro.
Exibições presenciais e online ampliam acesso
Grande parte da programação poderá ser acompanhada gratuitamente pelo público de todo o país.
Além das sessões presenciais realizadas no Rio de Janeiro, haverá exibições online por meio da plataforma Itaú Cultural Play e da mostra Visorama, disponível no site oficial do Festival Visões Periféricas.
Os ingressos para as sessões presenciais são gratuitos e distribuídos diretamente nas salas de exibição, respeitando a capacidade de público. A organização orienta que os espectadores consultem previamente a classificação indicativa de cada obra.
Ao completar 20 anos de existência, o Festival Visões Periféricas reafirma seu papel como espaço de valorização da diversidade cultural brasileira e da produção audiovisual independente. A expressiva participação de Pernambuco na programação reforça a força criativa do estado e evidencia a relevância de seus realizadores na construção de um cinema cada vez mais plural, inovador e conectado às múltiplas realidades do país.













