A história do Vivencial, grupo teatral pernambucano que desafiou a ditadura militar e transformou a cena cultural de Recife e Olinda entre as décadas de 1970 e 1980, ganha um novo registro com o livro Lantejoulas no mangue: teatro e desbunde do Vivencial, do jornalista Márcio Bastos.
Publicado pela Autêntica, o livro integra a coleção Nossas Histórias, coordenada por Renan Quinalha, dedicada ao resgate de episódios importantes da resistência LGBTQI+ no Brasil.
O primeiro lançamento acontece no dia 10 de outubro, sábado, a partir das 14h, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco (MAC-PE), em Olinda. O espaço fica na Rua Treze de Maio, 149, no bairro do Carmo.
Um teatro feito de resistência
Criado em 1974, o Vivencial reuniu homossexuais, mulheres, estudantes, artistas, pessoas trans, negros, intelectuais, trabalhadores e outros grupos que se identificavam como dissidentes. Influenciado pelo tropicalismo, teatro de revista e contracultura, o coletivo utilizava humor, provocação e irreverência para questionar os padrões sociais e políticos daquele período.
Em menos de uma década, entre 1974 e 1983, o grupo montou cerca de 30 espetáculos e realizou performances e happenings, enfrentando a censura e levando para os palcos temas como diversidade sexual, racismo, machismo e crítica à Igreja.
Para o autor, a importância do grupo ainda não recebeu o devido reconhecimento. “O Vivencial, que foi uma das experiências artísticas mais radicais do teatro brasileiro do período, permanece pouco conhecido na história das artes cênicas do Brasil”, afirma Márcio Bastos.
Da experiência religiosa ao palco
A origem do Vivencial está ligada a Guilherme Pontes Coelho, que chegou ao Mosteiro de São Bento, em Olinda, em 1973, interessado em seguir a vida religiosa. Como noviço, dirigiu Vivencial I, espetáculo que estreou em 24 de maio de 1974.
A montagem reunia textos de Bertolt Brecht e Jean Genet, poemas de Fernando Pessoa e colagens de notícias de jornais. O espetáculo também abordava questões consideradas provocadoras para a época, como racismo, machismo, religião e diversidade sexual.
A repercussão, porém, incomodou a direção do mosteiro, que não autorizou novas apresentações. Guilherme deixou posteriormente a vida monástica, mas a mistura entre elementos sagrados e profanos continuaria presente na trajetória do grupo.
O Vivencial Diversiones
Um dos momentos mais marcantes da história do coletivo ocorreu em 1978, quando os integrantes decidiram construir sua própria sede. O local escolhido ficava na comunidade de Ponte Preta, na divisa entre Recife e Olinda, em uma região de mangue cercada por mocambos e palafitas.
Com poucos recursos, as próprias vivecas, como eram chamados os integrantes do grupo, ajudaram a construir o espaço, batizado de Vivencial Diversiones.
O local funcionava como café-concerto, teatro, cinema e espaço para apresentações musicais e performances. Mesmo instalado em uma área com infraestrutura precária, tornou-se ponto de encontro de diferentes públicos e chegou a atrair nomes conhecidos da cultura brasileira.
Entre eles esteve Caetano Veloso, que visitou o espaço em 1979, após uma apresentação no Recife. O encontro ajudou a aproximar o grupo da cena cultural de São Paulo.
Personagens que ficaram na memória
O livro também recupera histórias de integrantes que se tornaram símbolos do Vivencial. Entre eles está Roberto de França, conhecido como Pernalonga, que entrou no grupo aos 15 anos.
Outra personagem destacada é a travesti Lolita, figura conhecida da boemia do Bairro do Recife. Sua frase “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife” acabou se tornando um dos registros de sua presença na vida cultural da cidade.
A trajetória do grupo também inspirou o filme Tatuagem, dirigido por Hilton Lacerda e lançado em 2013. Embora a produção tenha contribuído para ampliar o interesse pela história do Vivencial, o livro busca apresentar os acontecimentos e personagens que estiveram diretamente envolvidos naquela experiência.
Uma história que continua viva
O Vivencial foi oficialmente dissolvido em 1983, mas seus integrantes e sua influência permaneceram presentes na memória cultural pernambucana.
Em maio de 2024, Guilherme Coelho reuniu antigos integrantes e uma nova geração em Olinda para marcar os 50 anos do grupo. A celebração contou com figurinos preservados desde os anos 1970 e materiais relacionados à trajetória das vivecas, reunindo mais de 200 pessoas.
Hoje, aos 73 anos e novamente ligado à vida religiosa, Coelho resume a trajetória do coletivo no epílogo do livro: “Nunca achei que o Vivencial acabou; se diluiu”.
Com Lantejoulas no mangue, Márcio Bastos recupera essa memória e registra a trajetória de um grupo que fez do teatro uma ferramenta de liberdade, provocação e expressão em um dos períodos mais repressivos da história brasileira.

Sobre o autor
Márcio Bastos é jornalista, escritor e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco. Foi repórter de cultura do Jornal do Commercio e da Folha de Pernambuco e colaborou com veículos como Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, UOL, Quatro Cinco Um, Revista Continente e Revista Pernambuco.
O autor também é responsável pelo livro Pernalonga: uma sinfonia inacabada, publicado em 2023.














